Padre Alexandre Medeiros - “Os corvinos têm grande espírito de sobrevivência”
Com apenas 28 anos, Alexandre Medeiros é um jovem micaelense que se voluntariou para ser padre no Corvo. Uma ilha onde se integrou bem e onde um padre tem um papel muito importante no desenvolvimento da comunidade. Ideias não lhe faltam.


Como foi para si começar a sua vida como padre, partindo de São Miguel, a maior ilha dos Açores, para o Corvo, a mais pequena? Que sociedade encontrou no Corvo?

Em primeiro lugar, devo dizer que fui para o Corvo voluntário. O senhor Bispo tinha algumas dificuldades em arranjar padre para ir para o Corvo e eu ofereci-me. Na verdade, sempre quis ir para o Corvo e porquê? Foi pela especificidade da ilha. Como é que quatrocentas pessoas vivem isoladas no meio do Atlântico? Isso fascinou-me desde muito cedo e, já no seminário, dizia aos meus colegas e mesmo aos padres que gostava de ir para o Corvo. É claro que, quando isso se proporcionou, ofereci-me ao Bispo para ir e cá estou. Quanto à sociedade que encontrei… Encontrei uma sociedade em tudo igual às outras, no sentido em que há elementos positivos e elementos negativos. Não há no Corvo nada de extraordinário. Vivem aqui homens e mulheres, tal como nas outras ilhas ou nas grandes cidades dos grandes meios.

Quais são, no seu entender, as principais características da população do Corvo?

É uma população muito autónoma, no sentido em que têm um grande espírito de sobrevivência, porque os Invernos aqui têm anos em que são muito rigorosos. Às vezes, passam-se semanas em que o barco que traz a carga que abastece a ilha e o pequeno avião da SATA não vêm. É esse espírito de sobrevivência e autonomia que ajuda muito os corvinos, porque quando não se tem o Hiper ou o Cash&Carry ao pé da porta e tem que se esperar que venha o barco, se o tempo melhorar, as pessoas precisam de se saber abastecer. Outra característica muito importante dos corvinos é a de que os corvinos são um povo que sabe conviver. A justificá-lo estão as quatro ou cinco festas que existem aqui durante o Verão e são organizadas por comissões de pessoas que trabalham em espírito de voluntariado. As pessoas são muito sociáveis, umas com as outras, porque precisam umas das outras. Há quem não se dê bem, como em todo o lado, mas numa situação de necessidade, as pessoas sabem-se ajudar e até partilhar alguns géneros.

Pode-se dizer que é no Corvo que se sente na pele a definição máxima de insularidade?

Aqui é que vivemos numa ilha. No Verão isso não se sente muito porque está bom tempo. Ainda ontem, a lancha esteve cá e não há cancelamentos do avião. Mas quando se chega ao Inverno e se passam 15 dias sem nenhum auxílio, aqui é que se sente mesmo o espírito da insularidade. Mas isso tem um aspecto positivo, que é a partilha que se gera. Se me faltam ovos, vou pedir à vizinha; se tenho um quilo de açúcar a mais, ela leva-o para casa e quando vier a lancha, fazemos contas. As pessoas aprenderam a sobreviver assim e o facto é que o Corvo ainda está cá, quando as pessoas já poderiam ter saído daqui para outros pontos do arquipélago ou do País.

Foi sua vontade ir para o Corvo como padre. Que nível de religiosidade encontrou na ilha?

Como noutras ilhas dos Açores, a generalidade da população assume-se como católica. Na missa todos os domingos, temos uma média de 30 por cento, talvez umas 100 a 130 pessoas, normalmente, vão à missa ao domingo. Mas as pessoas são crentes nos seus dois grandes símbolos da religiosidade: um é o Espírito Santo, um símbolo partilhado com as outras ilhas dos Açores; o outro é a Senhora dos Milagres, padroeira da ilha, uma pequena imagem flamenga do Século XVI, que está aqui desde o princípio e que exerce uma força muito grande sobre os corvinos, porque enquanto o País os deixava à sorte dos piratas, a Senhora esteve sempre com eles nestes quinhentos anos de História.

Foi bem recebido no Corvo? De uma forma geral, como é que os corvinos olham para o resto dos Açores?

Num primeiro momento, há sempre um pé atrás, porque este povo todos os anos tem um padre e cada um com o seu feitio. Num primeiro momento, havia falta de diálogo. Ainda por cima, eu vinha directamente do Seminário o que é sempre uma menos-valia, porque é um “pequeno novo que não sabe nada e a gente é que o vai ensinar”… Depois, vim a perceber que precisava de falar com este povo, andar pelos caminhos, pelas lojas, pelas instituições, falar com A, com B e com C, inteirando-me do que existe e do que não existe. Agora, estou num ambiente muito bom. Dou-me bem com praticamente toda a gente da ilha. Respeito muito o trabalho das comissões de festas, dos grupos de pessoas que se organizam e estou muito satisfeito em estar cá e continuar, pelo menos mais um ano.

Está numa comissão de apenas um ano?

No Corvo, o senhor Bispo tem mantido o sistema da comissão de um ano, porque esta é uma zona muito sui-generis… Vim no ano passado com este contrato, mas só que, chegado à Páscoa, vi que as coisas estavam a correr bem e não havia necessidade de mudar. É muito fácil vir para aqui e julgar os corvinos. Mas antes de os julgar, é preciso perceber porque é que eles são assim.
Uma vez que já tem uma visão muito abrangente do Corvo, que iniciativas, no seu entender, seriam importantes desenvolver na ilha?

Acho que na área cultural é preciso investir em trazer cá ao Corvo um concerto do Conservatório, ou convidar um coro a passar por cá. Fazer uma série de conferências, mesmo para pouca gente, sobre temas importantes, como a paz, a família, a cultura, a açorianidade ou a emigração. Existe um grande marasmo cultural. As pessoas estão refugiadas em instituições que não têm dinheiro. Mas há coisas que, com pouco dinheiro e muito boa vontade, se consegue trazer aqui ao Corvo. No pouco tempo em que estou cá, sou testemunha disso e já consegui concretizar dois projectos a custo zero e que vêm beneficiar os corvinos ao nível da cultura e da formação social.

E quais são esses projectos?

Um é o projecto Informar Açores, do qual o Açoriano Oriental é parceiro. Pedi uma assinatura gratuita a todos os jornais que se publicam na Região, porque não chegavam aqui ao Corvo. Depois, fiz um protocolo com os CTT, para criar um espaço na estação dos Correios, onde os jornais ficassem à disposição das pessoas. Assim, quando as pessoas lá forem fazer os seus pagamentos ou receber encomendas, podem ficar por ali a ler as notícias de São Miguel, Terceira, Pico ou Faial e ficarem mais informadas. Em contrapartida, sempre que há um acontecimento no Corvo, eu faço um pequeno texto e mando para os nossos parceiros, para que eles também divulguem o Corvo. O outro projecto foi uma parceria com a RDP-Açores, através da qual, todas as semanas, eu participo no programa “Interilhas”. E como resultado disso, no dia 15 de Agosto, a missa de Nossa Senhora dos Milagres será transmitida pela RDP-Açores, em directo, a partir das 15 horas e para todo o mundo, via internet. É histórico: pela primeira vez, há uma transmissão em directo, a partir da ilha do Corvo, para todo o mundo.

Qual é o papel de um padre no Corvo? Se calhar e até pelo que já revelou, vai bem mais além do que as quatro paredes da igreja…

A minha prioridade como padre são as minhas tarefas na igreja: celebrar os sacramentos e evangelizar. Mas como tenho muito tempo e porque tenho grande contacto com a sociedade, vou vendo quais são as suas carências e, dentro dessas, em quais eu posso intervir. Foi assim com o projecto Informar Açores. Numa perspectiva lata, o papel de um padre é a humanização da sociedade. Evidentemente, eu não posso dar notícias para os jornais e esquecer-me de celebrar a missa. Não é essa a minha missão. Mas depois de ter cumprido os meus deveres como sacerdote, tendo tempo e capacidade, acho que devo investir noutros campos, para bem das pessoas e do desenvolvimento da ilha.

Causou muita polémica uma reportagem da SIC sobre o Corvo. Houve reacções de algumas forças vivas da ilha que se sentiram ofendidas com a reportagem. Qual é a sua opinião?

Nós temos o direito de ter as ideias que queremos acerca do Corvo. Mas a reportagem da SIC mostrou apenas uma parte do Corvo. Tudo o que o jornalista disse é verdade. Mas é uma parte da verdade e eu sempre aprendi que as meias verdades são piores do que as mentiras, porque ele mostrou um quadro tão negro que parecia que isto aqui era a antecâmara do Inferno. Não se falou da queijaria que exporta para todas as ilhas, continente e mercado da saudade; não se falou da empresa que se dedica ao mergulho e à exploração do fundo do mar e vêm pessoas de propósito ao Corvo participar nas actividades daquela empresa; não se falou do programa Corvo Digital, que entregou aos alunos computadores portáteis, sendo possível dar aulas no Corvo com recurso às novas tecnologias… Penso também que ele trazia uma ideia de que o Corvo tem de se desenvolver à imagem de Lisboa ou do Porto, onde existem muitas oportunidades e dinheiro. Mas o Corvo não tem que se desenvolver a esse nível. Somos 400 pessoas e o desenvolvimento aqui tem que seguir o nosso ritmo e as nossas necessidades. O jornalista também se esqueceu de dizer que durante todos os dias em que esteve cá, houve uma pessoa que lhe emprestou o seu carro para ele andar e que as pessoas lhe abriram as suas portas e partilharam com ele a sua vida. Os corvinos ficaram muito tristes e, agora, talvez os outros órgãos de comunicação venham a sofrer retaliações, o que também é mau.

No seu dia-a-dia, como é que acompanha o que se passa no resto dos Açores, no País e no mundo?

Através dos jornais, da internet e da televisão.

Não se sente isolado, portanto…

Só mesmo no Inverno sinto esse isolamento, quando começam a rarear alguns géneros. Mas a outros níveis de comunicação estamos óptimos. Temos redes de telemóvel, internet, telefone, televisão por cabo, não me sinto isolado de maneira nenhuma.

E ao nível das acessibilidades, acha que se poderia fazer mais, sobretudo no Inverno?

Não sei, porque o factor “estado do tempo” é muito importante. Acho que, se calhar, em certas situações de tempo não se deve arriscar a vida das pessoas, sobretudo ao nível do transporte aéreo. Mas os corvinos não devem ser filhos de um Deus menor. A SATA poderia escalar a ilha de segunda a sexta-feira. É a minha opinião. Se houvesse essa oportunidade, as pessoas organizavam a sua vida de outra maneira. Se nós fazemos parte do arquipélago dos Açores e se pagamos os nossos impostos, não temos culpa de sermos poucos. Podem vir mais para cá. Seria uma atitude interessante e muito importante para o desenvolvimento do Corvo, que a SATA escalasse a ilha de segunda a sexta-feira, agora até que o pequeno Dornier parece que se vai reformar. Com o novo avião, seria um boa oportunidade para a SATA escalar o Corvo de segunda a sexta-feira, tal como acontece nas restantes ilhas dos Açores.

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+ Informações:
Fonte: www.auniao.com
Autor: Rui Jorge Cabral/AO/aU
Data: 2006-08-14 12:01:21
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