Pedro Francisco - Conterrâneo partilha homenagem transatlântica
Depois de inaugurado em Rhode Island o monumento a Pedro Francisco, o seu promotor quer dar a conhecer a obra do veterano de guerra terceirense. Clemente Anastácio pretende difundir a história de um homem que fez carreira militar no continente americano sob a bandeira do patriotismo.


Humberta Augusto

O orgulho de ser terceirense extravasou a sua vontade de partilhar um dos pontos mais altos na homenagem ao ex-combatente terceirense Pedro Francisco, recentemente inaugurado com honras militares na cidade de Pawtucket, em Rhode Island, E.U.A.

De férias na ilha Terceira, o impulsionador da iniciativa, Clemente Anastácio sente agora o peso de partilhar a importância da vida e obra da vida de uma figura que fez carreira e ganhou nome na Nova Inglaterra, mas que pouco conhecimento tem na ilha Terceira.

Em declarações ao jornal a “a União”, Clemente Anastácio fala na importância de promover os filhos da terra: “temos de ser pelos nossos, pelas nossas gentes”.

Sob o perigo do esquecimento, o impulsionador da iniciativa conta como o homem que chegou a condecorar o mediático político J.F. Kennedy e o cardeal micaelense Humberto Medeiros, na altura cardeal de Bóston, sempre esteve no seu interesse.

“O meu interesse começou desde cedo, mas não havia muita informação sobre Pedro Francisco”.

Nascido na freguesia da Terra Chã em 1937, só depois de Clemente ter emigrado para os Estados Unidos em 1964 é que se apercebeu da dimensão do soldado herói nascido no Porto Judeu em 1760: “gostaria que o povo terceirense soubesse que algo foi feito por uma criança que foi raptada e que se tornou um herói na luta pela independência americana”.

Sonho realizado

“Era um sonho que gostei imenso de ter realizado”, confessa o terceirense, também ele um veterano do exército português.

A cerimónia de inauguração do monumento em honra a “Peter Francisco e aos veteranos das forças armadas”, no passado dia 4 de Setembro, contou com a presença do presidente do Governo Regional, entre outros representantes políticos e militares, tendo lugar no Centro Comunitário Amigos da Terceira as cerimónias.

Aliás, foi esta a instituição que ajudou a impulsionar o estudioso no seu intuito de trazer para a contemporaneidade a memória do militar terceirense.
“Foi uma pessoa com muita força na vertente patriótica”, relembrou.

Clemente faz questão em referir o fundador e actual director cultural dos Amigos da Terceira, Victor Santos, “o meu braço direito” no projecto da homenagem.

Grupo dos Amigos da Terceira

Clemente Anastácio afirma pertencer, em tom de orgulho, a cerca de 14 instituições de dinamização da comunidade portuguesa em Pawtucket.
Entre elas, salienta o Grupo de Amigos da Terceira, do qual é presidente da Assembleia Geral, Irmandade do Espírito Santo, Igreja de Santo António, Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra, Clube Social Português, Clube Juventude Lusitânia, Cidades Irmãs Angra-Tauton, Casa dos Açores na Nova Inglaterra “e outras mais”, disse.

Porém, a casa do Grupo dos Amigos da Terceira é a menina dos seus olhos: “é de facto uma organização muito activa onde se manifesta a verdadeira cultura de raiz da ilha Terceira e não só”.

Criada em 1988 e contando com mais de mil associados, esta “referência cultural”, como refere, tem sido responsável pela realização de inúmeras actividades, como ranchos folclóricos, teatro, danças de Carnaval, bodos, paradas, marchas, festas do Espírito Santo, etc.

“É a casa mãe dos açorianos”, afirma, explicando que todas as individualidade “pobres ou ricas” passam pela instituição.

Soldado herói
(1760-1831)

“Um verdadeiro gigante, alto e forte, tão corajoso como era forte, um homem descrito como acima de todos os preconceitos pessoais ou baixeza de conduta, ardentemente devotado à causa que ele tinha como sua, não existe figura tão intrépida em toda a historia dos guerreiros da América como Pedro Francisco”, assim assenta a nota biográfica pesquisada por Clemente Anastácio.

Pedro Francisco nasceu em 1760 na Freguesia do Porto Judeu, Ilha Terceira onde foi baptizado na igreja de Santo António. Em 1765, Pedro Francisco, com cinco anos de idade, foi trazido por desconhecidos para os Estados Unidos e abandonado no cais de City Point, agora Hopewell, no Estado de Virginia, sozinho e sem amigos.

O navio que o trouxe para a América, imediatamente se fez ao mar e dele nunca mais houve notícia. Marinheiros e demais trabalhadores do cais notaram que Pedro pouco entendia inglês e que apenas falava português.

Foi levado para o asilo Prince George e ali cuidaram dele até que o Juiz Anthony Winston, um tio de Patrick Henry, o levou para um lugar nos subúrbios de Richmond, no Condado de Buckingham. O Juiz Winston representou o Condado de Buckingham na Convenção de Virginia e era um dos chefes dos patriotas. Em 23 de Março de 1775, Pedro Francisco escutou, fascinado, o impressionante discurso feito por Patrick Henry em que ele proferiu a imortal frase, “Dá-me liberdade ou dá-me morte. A guerra surgiria logo após.

No Outono de 1776, com a idade de dezasseis anos, Francisco entrou para o Décimo Regimento das tropas continentais da Virginia. A primeira vez que entrou em combate foi em 11 de Setembro de 1777, em Brandywine, Pennsylvania. Foi neste local em Sandy Hollow que se encontrou pela primeira vez com o General Lafayette. Ambos ficaram feridos nesta batalha e tornaram-se grandes amigos durante a convalescença. Esta amizade foi preservada ao longo das suas vidas. Em 1824, Francisco acompanhou o Marquês na sua triunfante passagem através da Virginia. Um mês depois Francisco voltava à linha de combate em Germantown. Esteve entre os americanos que escaparam e fugiram do Fort Mifflin para as margens de New Jersey.

Em Stony Point entrou no forte após o Major James Gibbon de Richmond, sendo o Major o primeiro a faze-lo. Depois de Stony Point voltou para Virginia e alistou-se nas tropas de Cavalaria tendo tornado parte em muitas batalhas no Sul sob as ordens do General Gates e General Green. Missivas do campo de batalha de Camden, Carolina do Sul, contam como, tendo os cavalos sido mortos, Francisco mudou um canhao com o peso de mil e cem libras (500 kg) para nova posisão numa distancia de algumas centenas de pés. Foi nesta batalha que ele salvou a vida ao Coronel William Mayo, tornando possivel a sua fuga ao dar-lhe um cavalo inglês, depois de ter derrubado o cavaleiro que o tentou fazer prisioneiro. Conta-se que a espada que usava em combate foi mandada fazer especialmente para ele, por ordem do General Washington.

Entre os chefes da Revolução

Depois da guerra terminar, Francisco voltou a Buckingham County abriu uma pequena loja, e no ano seguinte era dono de uma taberna. Entre os muitos amigos que tinha contavam-se os chefes da Revolução Americana: George Washington, Patrick Henry, o Marques de Lafayette, General Nathanael Green, Coronel William Washington, Coronel William Mayo, Henry Clay e John Marshall,Juiz Presidente do Supremo Tribunal, muitos dos quais deixaram testemunhos pessoais do seu grande talento e simpatia, e do seu valor e valentia sobrehumana.

Um monumento foi erigido no sitio onde se travou a Batalha do Tribunal de Guilford no Parque Militar Nacional. A inscrição na base do monumento, encontra-se assim redigida: “A Peter Francisco, um gigante em estatura, poder e coragem, que matou nesta batalha onze dos inimigos com a sua espada descomunal, fazendo-se em consequência disso, talvez o mais famoso soldado da Guerra Revolucionaria. Em 1825, Peter Francisco mudou-se para Richmond, onde durante os últimos seis anos de vida serviu como sargento-de-armas da Câmara dos Delegados de Virginia.

Aos 16 de Janeiro de 1831, Peter Francisco morreu em Richmond. A Câmara dos Delegados, por respeito, foi suspensa para juntamente com o Senado, Governador e o Conselho da Cidade assistir ao funeral.

A Assembleia Legislativa de Virginia decretou uma manifestação de pesar. Os serviços Fúnebres foram celebrados na Sala de Sessões da Câmara dos Delegados pelo Bispo Channing Moore, sendo Francisco sepultado com todas as honras no Shockoe Cemetery, em Richmond, Virginia.

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+ Informações:
Fonte: A União
Data: 2006-09-20 14:09:26
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