Os frescos quinhentistas da Igreja Matriz de São Sebastião estão a estrear metodologias de limpeza e conservação na Região.
O facto de serem os únicos exemplares de pintura a fresco existente nos Açores tem feito com que os trabalhos da responsabilidade da Divisão do Património Móvel e Imaterial (DPMI) da Direcção Regional da Cultura (DRaC), contem com a orientação e supervisão do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR).
Para o efeito, têm estado destacadas, desde o início do ano, duas técnicas a tempo inteiro para a limpeza dos painéis de fresco que se encontram no interior do templo religioso.
Para já, a intervenção vai sensivelmente a meio, estando prevista a conclusão de um dos dois grandes painéis de frescos para o final do ano, de acordo com a DPMI. Quanto à data para o término dos trabalhos ainda não há calendário temporal.
Livro regista frescos e recuperação
Uma vez tratar-se de uma importante intervenção para a tutela da Cultura, está prevista a publicação de um livro, em formato de álbum sobre os frescos da Igreja Matriz de São Sebastião.
O lançamento da obra está agendado para o final do ano e nele vai constar não só o registo fotográfico dos frescos, como um estudo iconográfico feito pelo docente universitário Luís Afonso (ver caixa) que situa a execução destes frescos entre 1510 e 1530.
O álbum com cerca de cem páginas vai conter ainda o registo de todo o processo e metodologia utilizada na limpeza e recuperação das pinturas a fresco.
Relembramos que os frescos subsistentes na Igreja Matriz de São Sebastião ocupam grandes áreas das paredes das naves laterais: 2,55m de altura máxima, por 9,30m de largura na parede norte e 8m na parede sul.
Encontram-se ainda dois pequenos fragmentos, um de cada lado no último terço das naves.
Recuperações anteriores
Segundo a DPMI, existem registos de danos efectuados nos frescos provavelmente já desde 1614, após o sismo, tendo sido cobertos por uma camada de argamassa e de cal. Ter-se-ão seguido caiações sucessivas, até que, por alturas de 1939-40, o então Pároco da igreja, Padre Joaquim Esteves, empreendeu várias intervenções de limpeza de cantarias e paredes e descobriu os frescos.
A Igreja de São Sebastião foi classificada como imóvel de interesse público a 5 de Janeiro de 1951 e, nessa sequência, pôde beneficiar de obras de restauro por parte da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais.
Essas obras tiveram início em Dezembro de 1954 e, nessa altura, os frescos ainda apresentavam grandes áreas cobertas de cal.
Mais tarde, em 1958, o restauro dos frescos foi efectuado por uma empresa privada cujos trabalhos consistiram, essencialmente, na aplicação de argamassas à base de cimento, comuns na época, nas áreas de lacunas e nas margens dos frescos.
São todas estas intervenções humanas que agora a equipa da DRaC está a mitigar com o objectivo de criar a melhor visibilidade aos frescos.
Da biocida à limpeza mecânica
Ao longo destes últimos seis meses, que tiveram início no dia 8 de Janeiro, após a realização de obras de reparação das coberturas e da torre sineira da igreja, co-financiadas pela DRaC, têm sido várias as técnicas e metodologias usadas pela equipa. Desde o exame pormenorizado das superfícies pintadas e registo das informações iniciais, aos testes de limpeza mecânica e à própria limpeza mecânica, as etapas seguidas contemplaram ainda a identificação e aplicação de produtos para retirar fungos e algas que ao longo dos anos colonizaram as paredes da Igreja.
Assim, foi usado o “biocida Preventol® R80”, em solução aquosa com diversas concentrações, tempos e modos de aplicação.
O uso de bisturi foi, a título de exemplo, um dos utensílios usados pela equipa de técnicos.
Depois de terminados os trabalhos, a DPMI aconselha que se reveja a iluminação dos frescos para que sejam destacados, além da criação de modalidades de interpretação e de vigilância e acompanhamento dos mesmos.
Iconografia dos frescos
De acordo com o estudo do especialista Luís Afonso, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os frescos dividem-se em dois tipos distintos: cenas narrativas e figuras autónomas.
Na parede sul, encontram-se cinco painéis com figuras autónomas, sem relação aparente entre si, separados por barras verticais de grotescos.
Representam, seguindo a direcção da entrada para a cabeceira: São Martinho, Santa Bárbara, a Aparição de Cristo a Madalena (Noli me Tangere), Martírio de São Sebastião e Encontro na porta dourada.
Na parede norte, subsistem ainda dois painéis completos com a representação de São Miguel vencendo o demónio e do Juízo final; um conjunto de painéis com cenas narrativas da Paixão – Entrada de Cristo em Jerusalém, Última Ceia, Agonia no Horto e Prisão de Cristo– e ainda outros três fragmentos, em que dois não têm temática perceptível e um terceiro em que se pode identificar o Martírio de uma Santa.
O que é? - Pintura a Fresco
A técnica de pintura a fresco começou a ser usada em Itália a partir do Renascimento.
O fresco é um método de pintura mural que requer uma argamassa ainda húmida, ou seja, fresca.
Os pigmentos são usados sem ligante, apenas diluídos em água de cal.
A argamassa é preparada com cal e areia do rio.
A cal é hidróxido de cálcio e é preparada a partir de pedra de cal e água, e deve ser deixada a decantar para remover impurezas, num processo que leva normalmente dois anos.
As cores, aplicadas sobre a argamassa fresca, penetram na superfície.
Durante o processo de secagem da argamassa, a cal combina-se quimicamente com o dióxido de carbono do ar, adquirindo de novo o estado de cal apagada. É esta reacção química de carbonatação que fixa a cor.
Como a argamassa de cal é muito alcalina, as cores utilizadas devem ser resistentes a esse meio. Os pigmentos mais utilizados são as terras, nomeadamente para os tons amarelos, vermelhos e castanhos; para os verdes, é usada a terra verde, o verde cobalto e o verde esmeralda; para os azuis, o lápis-lazúli, o azul cobalto e o azul esmalte; para os negros, o carvão vegetal, o negro marfim e o negro de manganês; para os brancos, a cal, o carbonato de cálcio e a barita.
A metodologia usada na preparação da parede é a seguinte: sobre a parede (de pedra ou de tijolo) previamente molhada, é aplicada uma primeira camada, a trucella, que contém uma parte de cal e três partes de areia grossa. A espessura é de cerca de 1,5cm e é deixada a secar.
A segunda camada, o arriccio, contém uma parte de cal para duas partes de areia fina. A sua espessura deve ser mais fina que a anterior.
Sobre esta camada, é normalmente feito o desenho de todo o conjunto a pintar. Este desenho preparatório chama-se sinopia.
A terceira camada, o intonaco, consiste em uma parte de cal para uma parte de areia fina. A sua espessura é de cerca de 0,5cm.
É esta última camada que é aplicada diariamente sobre o arriccio só numa área que permita ser pintada num dia – daí o termo giornata – porque as cores têm de ser aplicadas na argamassa ainda fresca.
A técnica usada na pintura mural da Igreja de São Sebastião segue a técnica acima descrita, mas, enquanto na parede norte é possível observar a sinopia em áreas de lacuna do intonaco, na parede sul não foram ainda quaisquer vestígios nas áreas em que o arriccio está a descoberto. A areia utilizada neste caso é provavelmente areia de terra ou de ribeira.
Autor: Humberta Augusto
Data: 2007-08-17 10:28:02
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