Bactéria de tripa humana produz clones idênticos
Os seres humanos diferem uns dos outros de inúmeras maneiras. Somos tímidos ou audazes, pálidos ou sardentos, budistas ou presbiterianos. Podemos morrer de cancro na flor da idade ou viver por um século. Temos impressões digitais únicas.

Os cientistas compreendem apenas precariamente como essa diversidade se desenvolve. Parte dela deriva de experiências diferentes que vivemos, do ventre materno e infância à maturidade. Essas influências que nos moldam incluem coisas como os livros que lemos e o ar que respiramos. A nossa formação. A nossa diversidade também deriva dos nossos genes - os milhões de diferenças tipográficas entre um e outro genoma.

No que tange à nossa individualidade, atribuímos muito mais importância à natureza do que à formação. Esse é um dos motivos para que a clonagem reprodutiva inspire tamanho horror. Se genes querem dizer identidade, então uma pessoa que carregue o ADN alheio não dispõe de um eu distinto.

Mas existe uma falha profunda nessa maneira de pensar, e ela cega-nos para a maneira pela qual a biologia, humana ou não, realmente funciona. Um bom exemplo é a bactéria E.coli, que vive inofensivamente nas tripas dos seres humanos, em populações de mil milhões de espécimes. Uma E.coli típica contém cerca de quatro mil genes, ante cerca de 20 mil para os seres humanos. O micróbio alimenta-se de açúcar e cresce até que está pronto para se dividir em dois; faz duas cópias do seu genoma, e quase sempre é capaz de produzir cópias perfeitas do original. O micróbio divide-se em dois, e cada nova E.coli recebe um dos genomas idênticos. Por outras palavras, as duas bactérias são clones.

Decerto, portanto, a natureza deve ser completamente determinante para a E.coli, e a formação não a afecta. Uma colónia que descenda de um ancestral único é formada por um mil milhões de primos idênticos, todos respondendo ao mundo com o mesmo conjunto de genes.

Mas ainda que essa explicação pareça plausível, ela não procede. A E.coli na verdade cria multidões de indivíduos que, sob condições idênticas, se comportam de maneira diferente, com impressões digitais próprias.

Sob condições idênticas, alguns dos clones recobrem-se de pêlos aderentes que permitem que se prendam a células hospedeiras, enquanto outros se mantêm calvos. Caso uma colónia de E.coli seja alimentada com lactose (o açúcar do leite), alguns exemplares responderão absorvendo o alimento por meio de canais especiais e digerindo-o por meio de enzimas especiais. Outros franzirãoos seus narizes microbianos diante da refeição.

A chave para a compreensão dessas "impressões digitais" da E.coli é reconhecer que as bactérias não são simples máquinas. Ao contrário de fios e transístores, as moléculas da E.coli são frouxas, trémulas, imprevisíveis. Num aparelho electrónico, como um computador ou rádio, o fluxo de electrões é constante pelos circuitos da máquina, mas as moléculas da E.coli colidem e deslocam-se sem rumo. Quando a E.coli começa a usar um gene para produzir uma proteína, não fabrica um suprimento constante ou crescente. Um clone pode produzir meia dúzia de cópias de uma proteína em uma hora, enquanto o clone ao lado nada produz.

Outros estudos sugerem que a existência de um ruído imprevisível na maquinaria celular da E.coli é também responsável pela sua persistência, pelo revestimento peludo, pelo suicídio em benefício da colónia e pela vulnerabilidade da bactéria a vírus. A grande questão, de facto, para muitos cientistas, é por que a E.coli se desenvolveu de forma que o ruído possa produzir mudanças drásticas na sua biologia.

Modelos matemáticos sugerem que a E.coli utiliza o ruído celular como forma de distribuir as suas apostas. Uma colónia de bactérias não pode esperar até ser tratada com antibióticos antes de adoptar um modo persistente, porque seria exterminada antes de completar a tarefa. Por isso, a E.coli funciona de maneira que alguns dos clones estejam programados para persistir. Caso sejam atacados por antibióticos, alguns deles sobreviverão. Caso os antibióticos jamais apareçam, a maioria dos demais clones pode continuar a crescer e se dividir.

E a E.coli parece seguir uma regra universal explorada também por ouros micróbios, moscas e seres humanos. Algumas das células fotossensíveis do olho humano funcionam para a cor verde, e outras para o vermelho. A distribuição é aleatória. Uma proteína pode activar o gene vermelho ou o gene verde aleatoriamente, mas não ambos.

Nos nossos narizes, as células nervosas podem escolher entre centenas de tipos de receptores de odores. Cada célula escolhe apenas um, e os indícios sugerem que a escolha é determinada por acção incontrolável de proteínas em cada neurónio. Permitir que a escolha seja feita assim é muito mais prático do que produzir proteínas para o controlo de centenas de genes receptores de odores individuais.

Genes idênticos podem comportar-se de maneira diferente em nossas células porque parte de nosso ADN é coroado por átomos de carbono e hidrogénio conhecidos como grupos de metil. Esses grupos podem controlar se os genes produzem proteínas ou mantêm o silêncio. Nos seres humanos (e em organismos como as E.coli), os grupos de metil ocasionalmente caem do ADN ou se anexam a pontos diferentes da cadeia. O acaso pode ser responsável pelas alterações em alguns deles; nutrientes e toxinas respondem por outras mudanças.

Os gémeos idênticos podem ter genes quase idênticos, mas os seus grupos metílicos são distintos quando nascem e se tornam cada vez mais diferentes enquanto os anos passam. À medida que os padrões mudam as pessoas se tornam mais ou menos vulneráveis ao cancro ou às outras doenças. Esta experiência pode ser a razão pela qual gémeos idênticos morrem, frequentemente, com diferença de anos. Não são idênticos de todo.

No mínimo, a individualidade da E.coli deveria servir como alerta àqueles que atribuem a natureza humana a alguma forma simples de determinismo genético. Seres vivos são mais do que programas rodando softwares genéticos. Mesmo em minúsculos micróbios, os mesmos genes e a mesma rede genética podem resultar em destinos bastante diferenciados. A palavra do leitor

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Fonte: Diário dos Açores
Data: 2008-05-05 12:55:41
Visualizações: 38

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