Mestrado em Gestão de Empresas (MBA)
Manuel Jacinto Arraial - O violino também tem "alma"
O seu violino tem mais de um século de existência. E Manuel Jacinto Arraial para lá caminha.


Em entrevista, um dos violinistas mais antigos da cidade de Angra do Heroísmo, oriundo de São Miguel, revelou à “a União”, na sua casa, que aos 13 anos de idade teve o primeiro contacto com um violino, nos Estados Unidos, e aos 20 tocou na companhia de alguns membros da máfia italiana na viagem de barco de regresso aos Açores.

Histórias de orquestras e concertos que nos foram contadas por Manuel Jacinto Arraial, entre “as Czardas” e “Thais”, duas músicas clássicas tocadas ao violino com mestria e emoção.

Aos 96 anos de idade Manuel Jacinto Arraial ainda conserva o mesmo violino que em 1965 lhe fora oferecido por Alberto Moniz, avô da cantora e actriz Lúcia Moniz. Um instrumento “maravilhoso” que o cativa sobretudo pelo som.

Antigamente chegava a tocar violino todos os dias, agora depende das “forças”.

“Há dias que toco mais de uma hora. Mas canso mais os braços”, revela Manuel Jacinto Arraial, ao recordar, entretanto, que quando era mais novo levantava-se de madrugada para tocar violino antes de ir para o trabalho.

A dedicação a esse instrumento clássico é tão remota que se torna quase impossível imaginar Manuel Jacinto Arraial sem o seu violino. Ainda adolescente, a viver nos Estados Unidos da América para onde emigrou com apenas dois anos de idade, completados a bordo do barco, o violinista açoriano começava a dar os primeiros “toques” naquele que viria a ser uma parte importante do seu futuro profissional. E tudo por motivação da própria mãe.

“A minha mãe é que tinha gosto que eu tocasse violino. Ela tocava viola da terra e harmónica e tinha uma voz muito bonita. O meu irmão mais velho tocava violão”, diz, referindo o canto aos reis, pelo Natal, como ponto de partida das suas actuações musicais.

E se a sua adolescência foi passada nas terras do Tio Sam, empregado numa fábrica de algodão, entre solicitações para actuar em orquestras e festas em clubes, a sua juventude viveu-a nos Açores.

“Viemos embora da América porque as coisas ficaram ruins em termos económicos, começou a faltar trabalho. Na viagem de barco para cá tocava violino na companhia do tenente da quadrilha do “Al Capone”, conta Manuel Jacinto Arraial, em tom de confissão. “Todos os dias estávamos os dois a tocar na mesma zona do barco, poucas horas antes do jantar. As pessoas já sabiam e esperavam pela nossa chegada”, continua, acrescentando que “ele era muito boa pessoa”.

Apesar de as diferenças sociais e culturais entre os Estados Unidos da América e os Açores, em São Miguel, mais propriamente em Vila Franca do Campo, de onde é natural, continuaram as participações em orquestras e concertos com o violino, motivando, inclusive, muitos outros jovens para seguir o caminho da música com a formação da tuna “Santa Cecília”.

Porém, a falta de emprego levou Manuel Jacinto Arraial a aceitar em 1947 um convite para trabalhar na ilha Terceira. O facto de falar bem a língua inglesa permitiu o violinista instalar-se na Base das Lajes na manutenção de aviões.

Por aqui ficou e rapidamente integrou-se no meio artístico e musical terceirense, marcando presença também em orquestras e concertos, ao lado de outros músicos conhecidos como Luís Soares, Fernando Soares e Manuel Reis, um violinista terceirense por quem tem admiração e considera “excelente”.

Durante mais de uma década fez parte da Orquestra “Duarte Carneiro”, actuando em festas no Seminário de Angra e na Base das Lajes. Manuel Jacinto Arraial e o seu violino faziam-se igualmente notar, e num tempo recente, em casamentos, missas e festas privadas para que era frequentemente solicitado.

Além disso, era habitual também escrever partituras como foi o caso da música para a missa celebrada na reinauguração da Igreja da Sé, em 1985.

Desde a década de noventa que Manuel Jacinto Arraial não mexe na “alma” do seu violino. E certifica-se que se faz entender no assunto.

“O violino também tem “alma”, é esta parte pequena, no seu interior. Levei anos a acertá-la, faz toda a diferença”, explica, ao mesmo tempo que se prepara para tocar.

Por trás do artista

Ao lado do violinista esteve sempre presente a sua esposa, Maria Glória Arraial, inclusive nesta entrevista. Uma senhora também de São Miguel, com quem casou em 1950, que diz, divertida, que “não foi a música que nos uniu”, embora assuma ser admiradora dos dotes musicais do seu marido.

Juntos tiveram duas filhas, sendo que em termos artísticos uma se dedica ao canto e ao piano, com quem Manuel Jacinto Arraial já actuou várias vezes, e a outra se dedica à pintura. Quanto aos quatro netos, todos com idades superiores a 20 anos, o violino parece, segundo revela, “completamente fora das suas ambições”.

“Gostava que os meus netos soubessem tocar violino”, confessa o músico, ao considerar, no entanto, que “a música não dá sustento” e que “eles fazem bem em dedicar-se aos estudos”.

Ainda assim, num gesto de amor e ternura, como alguns dos seus netos residem fora da ilha Terceira, Manuel Jacinto Arraial felicita-os pelo aniversário, ao telefone, a tocar “Parabéns a Você” ao violino.

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+ Informações:
Fonte: A União
Autor: Sónia Bettencourt
Data: 2008-06-09 17:05:11
Visualizações: 189

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