Quinta das Acácias
Açores: O linguajar de uma região onde é normal “acordar morto”
A possibilidade de "acordar morto" é tão real que os habitantes de algumas das freguesias da ilha Terceira a definem como "assustadora para os que ficam, mas uma bênção para os que partem".


É assim que alguns idosos revelam que a forma "mais digna" que o ser humano tem para se "passar para o outro lado é seguir viagem enquanto dorme", evitando-se "os horrores das dores e dos hospitais".

O linguarejar das ilhas açorianas tem expressões, algumas adaptadas, que apenas os residentes locais, numa primeira abordagem, estão aptos a decifrar, deixando nos visitantes a dúvida do seu significado que é diferente do sentido literal.

Numa qualquer mercearia ou minimercado rural pode ouvir-se dizer: "bom dia vizinho, hoje temos polvo da terra", o que significa que o animal foi caçado pelos pescadores locais (conhecidos como barbas de rato) nos mares das ilhas e não por ser cultivado ou importado.

Muitas das expressões do arquipélago são corruptelas de palavras portuguesas e outras variações adaptadas, principalmente, de uma deficiente tradução de palavras do inglês (americano) transportado por muitos dos emigrantes açorianos.

É comum uma mãe perguntar ao filho se vai "slipar" (to sleep - dormir) ou se vai sair e leva a "suera" (de sweter - casaco de malha ou camisola), ou para as crianças não sujarem a "sôfa" (divã ou sofá) ou a "sôfa de esporim" que significa este ter molas.
Não se usam sapatos sem "stáquines" (stocking - meias] ou "saquète" [sock - peúga) e nos convívios não se deve abusar do "spiche" (to speak - falar), pois os muito faladores podem passar por "sovelas" (pessoa de má língua).
A expressão "smàradiôgo", (que significa o que se passa contigo) é uma estropiação da frase "what is the matter with you".

Grande parte destas expressões, ainda que nem todas, constam do "Dicionário de Falares dos Açores - vocabulário de todas as ilhas", da autoria do médico J.M. Soares de Barcelos, natural de Ponta Delgada e residente em Coimbra.

O autor refere que "além da definição dos lexemas, procurou determinar-se a sua etimologia sempre que pudessem surgir dúvidas quanto à sua origem".
Soares de Barcelos explica que "se fizeram algumas considerações mais alongadas com o intuito do trabalho se tornar num veículo de informação sobre o arquipélago".

Sublinha, também, que "no povoamento das ilhas há uma participação de quase todas as províncias portuguesas embora, e dependendo de cada ilha, existam predomínios de uma ou outra".

Aqui pode encontrar o significado da expressão "cegão" (maçador, provocador), um "corneta" (homem de nariz grande) ou uma "correão" (mulher que passa a vida fora de casa, uma maria-rapaz ou como corruptela de coirão).

Um homem pode ser "purfeito" (perfeito ou bem nutrido) sobretudo se não tiver "espigos" (borbulhas de acne), ou se não for uma "zabela" (efeminado ou homossexual) o que pode ser uma "desgrácia" (desgraça) por ele até ser bonito mas assim "quiserim" (quiseram).

Nas consultas médicas muitos clínicos coleccionam termos algo embaraçantes, em particular para as mulheres.

Na especialidade de ginecologia é frequente, sobretudo mulheres mais antigas e do mundo rural, referirem a existência de problemas na "boca do corpo, boca do mundo ou canal do gozo" quando se querem referir à vagina ou ao útero.

Desde os casos mais simples como os "vago" (vertigem ou desmaios) passando pelo "gastrol" (colesterol) elevado, que pode remeter um doente para os cuidados "incentivos" (intensivos) até à "venenosa" (injecção intravenosa) que deu genica para voltar a pé para casa.

No caso dos homens, são mais os "males-de-avé-maria" (acidentes vasculares cerebrais ou apoplexias), as "sisunites" (sinusites) ou no "aparelho" (pénis), quando têm de identificar ao médico algum problema urológico que os impede simplesmente de "coitar" [acariciar, fazer festas].
Região de grandes efectivos de bovinos para a produção de leite e carne são comuns, devido ao esforço físico do trabalho realizado, muitas vezes em terrenos "vadios" (baldio), as dores nos "rinses" (rins) ou as "quebraduras" (hérnias).

Nos dias em que se levantam "à risca da manha" (muito cedo) para ir "amorraçar" (peneirar) ou "esvedigar" (espalhar, salpicar) nos terrenos, espera-se por bom tempo porque quando troveja anda "São Pedro a mudar os trastes" sendo preciso rezar para afastar o "abrás" [o diabo].

Os mais trabalhadores não gostam dos que possuem um feitio "ronção" (indolente; mandrião) e muito menos de "telhudos" (pessoas complicadas, difíceis) que provoquem "barbudas" (situações embaraçosas ou alhadas) que derivem para "degodanas" (zaragata).

A sempre "amada" "sogra" pode não ser a mãe do marido ou da mulher, mas significar uma rodilha feita de pano para transportar cargas na cabeça.
Hoje já não se usam as "mamadeiras" (boneca de açúcar que se dava às crianças para adormecerem), mas os carros já têm "iceberg" (airbag) com que se pode ir longe para ver um "crísimo ou doença-do-céu" (eclipse) com os binóculos que se foram buscar ao "sóteo" (sótão).

E, em terras de gado bravo, é frequente nas touradas à corda ouvir gabar um "desagoniado" (afoito, corajoso), porque se manda à "cara" do toiro e arriscando-se a ser "guindado" (enviar ou mandar algo) o que faz com que muitos "dêem um guindo" (assustar-se).

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Fonte: Diário dos Açores
Data: 2008-06-30 14:10:36
Visualizações: 233

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