Paixão de criar cavalos selvagens resiste apesar dos prejuízos
O negócio quase nem dá para o gasóleo e as feridas provocadas pela recente chacina dos seus cavalos custam a cicatrizar, mas Carlos vai continuar a criar garranos, porque não é homem de desistir assim de uma "paixão". Com 28 anos de idade e morador em Bico, Paredes de Coura, Carlos Araújo trabalha numa fábrica de peúgas e é ainda motorista de transportes públicos em part-time, mas mesmo assim consegue arranjar pelo menos duas horas diárias para subir ao monte, no seu jeep e "visitar" os seus animais.


"Se formos a fazer bem as contas, praticamente nem dá para o gasóleo. Mas tenho paixão por isto, que é que se há-de fazer?", refere.

Pela venda de uma cria com seis meses e com 50 ou 60 quilos de peso, pode conseguir, no máximo, 100 euros.

"A carne é boa, mas ainda não tem muita procura, ainda não entrou nos hábitos alimentares dos portugueses", explica.

Ao baixo preço da venda dos cavalos, Carlos junta ainda os "ataques" de que eles "volta e meia" são alvo, como aconteceu ainda em inícios de Junho, quando dez garranos foram mortos a tiro de zagalote, nos montes de Paredes de Coura. Seis pertenciam a Carlos.

"Nem imagina a dor, a tristeza e a revolta que vão cá dentro", desabafa, enquanto trata, com carinho, das feridas dos dois potros que conseguiram resistir aos tiros.

Um deles foi alvejado numa perna e outro tem ainda uma bala alojada detrás da orelha, que irá ser removida dentro de dias, através de uma operação cirúrgica.

Nesta fase de convalescença, em que precisam de maiores cuidados os dois potros estão numa propriedade junto à habitação de Carlos, mas logo que recuperem serão, como todo o garrano que se preza, largados no monte, onde ficarão noite e dia, entregues à sua sorte.

"Eu vou todos os dias ao monte vê-los, mas na maior parte do tempo ficam sozinhos, sujeitos a tudo e mais alguma coisa", confessa aquele criador.
Diz que só nos últimos dois anos, na zona de Paredes de Coura, terão desaparecido entre 50 a 70 garranos.

"Uns morrem por acidente ou por causas naturais, outros são mortos de uma forma bárbara por gente sem quaisquer escrúpulos, outros são pura e simplesmente roubados", explica.

Admite que os cavalos de vez em quando descem do monte e acabam por invadir propriedades privadas, estragando as colheitas, mas ressalva que "nada justifica" a violência contra os animais, porque eles, "além de não terem culpa nenhuma", estão devidamente identificados.

"Quando os nossos animais causam estragos, pagamos as respectivas indemnizações e o assunto fica resolvido", afirma.

Confessa que a chacina dos seus animais lhe provocaram um profundo desânimo e que, por momentos, chegou mesmo a desistir da criação, mas a "paixão falou mais alto". "Você conhece alguém que desista de uma paixão?", atirou.

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Fonte: Diário Dos Açores
Data: 2008-07-08 16:18:00
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