Quinta das Acácias
Portugueses avançam no conhecimento das origens da vida
Uma equipa de investigadores da Universidade Técnica de Lisboa fixou como objectivo próximo sintetizar ribonucleótidos, que são os elementos constituintes do RNA (ácido ribonucleico), dando assim mais um passo no conhecimento das origens da vida.


A meta foi traçada por Fraústo da Silva, José Armando Silva e colegas num estudo aceite para publicação pela Royal Society of Chemistry, do Reino Unido, no qual apresentam resultados preliminares "bastante estimulantes".

"Uma das dificuldades para explicar a origem da vida é saber se primeiro apareceram as proteínas ou os ácidos nucleicos (ADN e ARN)", ou, para simplificar, se primeiro apareceu o ovo ou a galinha, disse à agência Lusa um dos co-autores do trabalho.

"Este problema coloca-se porque o ADN e o ARN estão envolvidos na síntese das proteínas e estas participam no mesmo processo nos ácidos nucleicos, neste caso de forma significativa como enzimas, que têm propriedades catalíticas, isto é, de aceleração das reacções químicas", explicou José Armando Silva, docente de Química Bioinorgânica" no IST (Instituto Superior Técnico).

Acontece que, nos anos 1980, foram identificados alguns tipos de RNA igualmente com funções catalíticas, designados ribozimas, levando a admitir que desempenham um papel importante na origem da vida.

O trabalho dos investigadores partiu da constatação de que não tem sido possível até agora formar um ribonucleótico, unidade elementar do RNA, sem a presença de organismos vivos, embora se possa formar os elementos que o constituem: fosfato, ribose e uma nucleobase.

"Foi com base nestas questões que iniciámos o nosso trabalho", disse o investigador à Lusa.

O estudo incidiu na interacção de sais naturais com ribose, o açúcar do ADN.

Foi partindo da convicção de que a ribose, por estar presente nos organismos vivos e participar em muitos processos biológicos, será anterior ao aparecimento da vida, que os investigadores decidiram aprofundar as origens desse açúcar nos sistemas biológicos.

Encontraram então provas do envolvimento do borato, que está presente na água do mar e onde se julga que a vida começou.

É que o borato, ao associar-se à ribose, cria um complexo estável mesmo em condições como as das fontes hidrotermais dos oceanos profundos, apontadas como possíveis berços da vida, o mesmo acontecendo a temperaturas até 60 graus Celsius e em ph alcalinos.

Para Antonio Lazcano, presidente da Sociedade Internacional para o Estudo da Origem da Vida, este estudo "amplia a nossa compreensão do papel dos iões inorgânicos na estabilização de compostos como a ribose sob condições primitivas onde a sua acumulação e evolução poderão ter ocorrido".

A colaboração de José Armando Silva com Fraústo da Silva dura há cerca de 20 anos, desde quando se doutorou sob sua orientação no IST.

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Fonte: diário dos açores
Data: 2008-08-07 12:53:13
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