Em Portugal, apenas 70 remédios novos foram disponibilizados em dez anos
Em dez anos, apenas foram disponibilizados em Portugal cerca de 70 remédios novos, neste caso, produtos com princípios activos inovadores. De acordo com um relatório da consultora IMS Health, Portugal é o último de uma lista de 13 países europeus, que lançaram, na sua maioria, mais de 150 produtos novos entre 97 e 2007. Fontes da indústria apontam razões como a pequena dimensão do mercado nacional ou o facto de estes produtos se destinarem a populações mais reduzidas. Mas há ainda quem diga que o acesso ao mercado nacional tem regras muito restritas, sobretudo a dificuldade em obter comparticipação.


A Alemanha é o país que mais disponibiliza estes produtos novos, com um total de mais de 200 moléculas. Abaixo dos cem, só mesmo Portugal, de acordo com os dados da consultora. João Almeida Lopes, presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma), explica ao DN que "Portugal é um país com pouca dimensão, a que se junta um problema sério de avaliação de medicamentos, por ter falta de recursos". E lembra que o País faz uma análise de custos apertada e tem uma política mais economicista, que implica alguns travões a novos fármacos. Há casos em que tem de se ver "se estamos de facto perante uma inovação". Apesar de haver alguns problemas, garante que Portugal "tem um arsenal ao nível da Europa".

Uma fonte da Pfizer diz haver "muitas barreiras à entrada de produtos em Portugal. Cada país tem o seu sistema de comparticipação. Em alguns é automático, noutros, como Portugal, além de não ser automático depende sempre de estudos fármaco-económicos".

Perante estas regras, há laboratórios que optam por não introduzir os remédios porque "não conseguem justificar a sua mais-valia fármaco-económica, não conseguindo comparticipação". Além disso, há empresas que já sabem que determinados remédios têm um preço demasiado elevado em relação a outros que já existem no mercado, optando por não pedir a sua entrada no mercado. "As empresas têm sempre interesse em lançar produtos, quando é possível ultrapassar barreiras."

660 autorizações especiais

As mesmas dificuldades são sentidas nos medicamentos inovadores nos hospitais. Desde que essa responsabilidade ficou na esfera do Infarmed, apenas meia dúzia de remédios foram autorizados. Fonte do Infarmed refere que, até 2007, não houve atrasos na autorização de medicamentos no mercado. Excepções são os fármacos hospitalares, devido à falta de recursos humanos. A mesma fonte realça, porém, que até agora não houve doentes sem acesso a medicamentos por causa destes obstáculos. "Quando um fármaco não existe no mercado, seja porque não foi introduzido ou porque está em fase de aprovação, recorre-se às autorizações de utilização especial. No último ano, autorizámos 660 pedidos a nível hospitalar."

Cuidados primários com menos inovação

O tratamento do cancro é a área com maior volume de vendas a nível mundial. Se hoje supera os 37 mil milhões de euros em valor, os consultores da IMS calculam que estas venham a atingir mais de 70 mil milhões em 2011, com um crescimento de 15% ao ano. Os cuidados primários, nomeadamente áreas como o controlo do colesterol elevado ou a hipertensão, são os que vão sofrer desinvestimento em detrimento de áreas mais especializadas.

O cancro será a área com maior crescimento, mas há outras, como as doenças respiratórias, a diabetes ou as psicoses que vão registar aumentos durante os próximos anos. O envelhecimento da população e o maior número de casos em determinadas patologias justificam estas opções da indústria. Os laboratórios lidam ainda com a caducidade de patentes em muitas classes terapêuticas, o que significa que a produção de genéricos vai aumentar largamente nos próximos cinco anos.

A perda de peso dos cuidados primários para áreas especializadas como a oncologia deve-se ao facto de "haver cada vez mais patologias que começam a ficar resolvidas e que já têm respostas, por isso passam a investigar-se problemas mais complexos", refere João Almeida Lopes, da Apifarma.

"Há grandes problemas que já são tratados e áreas como a oncologia, imunologia, dor e inflamação ainda estão por explorar", diz Carlos Macedo, da Pfizer. O investimento em investigação está a duplicar, mas as aprovações por parte das entidades reguladoras estão, pelo contrário, a cair. Por isso, as empresas têm de se reinventar.

Áreas que já estão acauteladas, acabam por não justificar grandes investimentos: se não tiverem vantagens em relação aos remédios anteriores, a sua introdução não se justifica. "Ninguém investe para depois não colocar no mercado", diz João Almeida Lopes. Há áreas que podem, no entanto, não ficar acauteladas. "Há pouco desenvolvimento de antibióticos, o que poderá ser dramático em determinadas patologias daqui por uns anos".

Imprimir Noticia

+ Informações:
Fonte: DA
Data: 2008-10-07 13:42:41
Visualizações: 201

Comentários:
Para comentar precisa de estar registado e identificado.
Sem comentários

Contactos | Publicidade
Adicionar aos Favoritos