Produtores hortícolas desanimados com apoio técnico do sector público
Sabe-se da ligação de Paulo Casaca à agricultura açoriana, mas nos últimos dias o eurodeputado parece ter encontrado uma nova cruzada: aproveitar um novo Regulamento do Conselho Europeu sobre a necessidade de promover junto das crianças um maior consumo de frutas e legumes – e no processo fortalecer esse sector pobre da agricultura açoriana. E quando soube que a Europa vai aprovar 90 milhões de euros nesse projecto, decidiu dá-lo a conhecer aos produtores locais. Mas apesar das boas intenções, a ideia parece ter feito ricochete: os produtores estão desanimados, sentem-se desapoiados e não acreditam que conseguirão aproveitar esses novos apoios.


Não era provavelmente isso que Paulo Casaca esperava ouvir, quando convocou alguns dos maiores produtores locais para um jantar esta semana no Fontenário, na Fajã de Cima. Estima-se que os Açores produzam menos de 10% do total de frutas e legumes que são consumidos na Região e ao nível de S. Miguel não existe qualquer organização dedicada especificamente à produção de horto-frutícolas. Quando falaram, os produtores não esconderam que "na prática não existe qualquer estratégia de desenvolvimento agrário na Região" e mostraram-se mesmo cépticos em relação a esta medida: "seria um erro investirmos a pensar nesse apoio; os nossos problemas devem primeiro ser resolvidos e não nos devemos atirar para aventuras", afirmou mesmo um deles.

A sugestão que os produtores se deveriam unir à Sinaga neste processo levantou também várias desconfianças.

Ao certo, o que se passa é que a Europa descobriu que a obesidade está a aumentar entre os jovens europeus e quer contrariar essa tendência. Na prática, entendeu que deveria encetar uma estratégia para aumentar o consumo de legumes e frutas na idade escolar, entre os 6 e os 10 anos, que é onde se estima que se definem os gostos alimentares. E vai pagar para que esses alimentos sejam distribuídos gratuitamente pelas escolas.

Para aceder a esses apoios, os Açores terão de preparar um plano concreto para a sua implementação. Casaca acredita que ele será feito em breve e que será apresentada uma candidatura à UE. Mas as dúvidas são mais que muitas sobre até que ponto haverá capacidade para que essas verbas fiquem efectivamente na região. É que à luz da legislação europeia, os produtores regionais não poderão ser directamente protegidos pelo normativo que irá ser criado – pelo menos não abertamente. Mas questiona-se até que ponto as entidades regionais terão capacidade para inventar um sistema adaptado à Região – e sobretudo qual o papel que deve caber aos produtores. A posição mais ouvida era clara: o Governo não está a cumprir o papel que se espera dele a este nível, a Universidade dos Açores está ausente e até em termos de legislação, nomeadamente ao nível da homologação de práticas e produtos, há um atraso significativo.

Por diversas vezes, Paulo Casaca comentou a mais recente "Tabela Nutricionista" que foi lançada esta semana, destacando o valor nutricional de produtos como o feijão verde ou o ananás. Mas o que percebeu foi que se a apresentação desses produtos à população escolar pode ser difícil, motivar os produtores poderá ser ainda mais.

No fim do encontro, Oliveira Melo, da Granja, um defensor de longa data da produção regional, apresentou um pequeno filme produzido pela John Deere onde a classe dos agricultores é claramente valorizada. Mas de certo modo, o filme, mais do que estimular os presentes, fê-los perceber como são de facto o parente pobre da política agrícola regional...

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Fonte: DA
Data: 2008-10-31 11:08:23
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